v. 6 n. 17 (2026): Decolonialidade antropofágica: A ressignificação do tempo é uma revolucionária ruptura epistêmica

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Editorial

Estamos em festa! A Revista Cactácea comemora 5 anos.

São 5 (cinco) anos de publicações, de história, de incentivo ao pensamento crítico e livre. Somos uma revista que nasceu de um sonho: ser espaço verdadeiramente decolonial para as mais diversas publicações, derrubando as barreiras que invisibilizam e silenciam autoras e autores que, muitas das vezes, não correspondem ao cânone e às exigências Qualis. Eu e Sandro Baraldi, editores desta revista, sempre prezamos por mantermos este espaço decolonizado, vivo e vibrante. Prova disso é a crescente procura pela revista.

Em 1º de junho de 2021, publicamos timidamente o 1º número da Revista Cactácea com o Dossiê temático: O tempo em tempos de pandemia, fruto das discussões no grupo de estudo e pesquisa Mandacaru[1]: educação e filosofia. Foram 5 ensaios. E mais 2 artigos publicados fora do dossiê.

No Editorial inaugural, Baraldi[2] (2021, p. 1) diz:

Parece que o mundo inteiro, ao mesmo tempo, começou a pensar o tempo. O que significa que não se pensa nele já há algum tempo. Demasiadamente ocupados, como hordas   de   “zumbis”,   insanamente   seguindo   rotinas   estafantes,   estressantes, delirantes, o tempo era algo que faltava para a saúde mental voltar. A pandemia de COVID-19 veio “remediar” isso freando bruscamente as rotinas diárias. Ninguém que esteja vivo – a menos que tenha mais de 100 anos – testemunhou algo similar: o tempo “sobrou”. Qual a nossa surpresa, no entanto, quando desvelamos o mal estar trazido pela “falta do que fazer”. Mais de ano em isolamento forçado e o “tempo desobra” tornou-se outro anátema,  tal qual a  “falta de tempo”. Por isso, discutir o tempo está na moda.

Motivados pelas mesmas razões, a Revista Cactácea inaugura o primeiro número com um dossiê temático refletindo sobre os poderes da temporalidade sobre nós, humanos.

São 72 páginas de um sonho que vai se materializando, se fazendo história. Baraldi é o centro deste trabalho. É quem edita cada número e cada volume com esmero, pesquisa, dedicação, leitura crítica e desejo de manter esse espaço como um “onde” se pode pensar, escrever, dedicar-se ao que é invisibilizado e silenciado.

Ao longe desses anos, vimos e ouvimos autoras e autores de diversos lugares, com inquietações outras. Passamos de 72 páginas de reflexões para 297 páginas na publicação de 1º de março de 2026. Parece muito cartesiano falar em número de páginas, mas é a melhor forma que encontrei para mostrar como a Revista Cactácea tornou-se um espaço para muitas vozes, para autoras e autores que confiam em nosso trabalho de divulgação do pensamento livre e crítico.

Os editorias são nossa marca registrada e trazem textos de Baraldi, na maioria deles, traçando uma linha de reflexões sobre decolonialidade e, mais recentemente, sobre uma decolonialidade antropofágica. Nosso objetivo continua firme: sermos um espaço onde “pretendemos elaborar uma revista que "funcione" pelas rupturas epistêmicas”. Vale a pena entender os propósitos e a lógica na escolha do nome da revista.

Em "Sobre"[3] a revista, encontra-se a seguinte descrição que vale a pena conhecer:

Revista voltada à divulgação do conhecimento filosófico e educacional. Contém artigos, dossiês, ensaios, resenhas e traduções. De amplo espectro humanístico e social.

Não é usual fazer uma análise semiótica do logotipo de uma revista. Mas pretendemos elaborar uma revista que "funcione" pelas rupturas epistêmicas. Em virtude desta premissa, resolvemos interpretar o que esta imagem, que se parece com um cactus, e o nome da família a qual pertence, as cactáceas, significa para nós neste exercício singular de reunir imagem e narrativa.

O cactus é formado por balões de linguagem como os usados nos quadrinhos:

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São essas diferentes "falas" que compõem a comunicação. Embora pareça uma obviedade, há um silenciamento histórico que qualifica algumas "falas" em detrimento de outras, criando um ambiente hostil de supremacia ideológica patriarcal.

Neste espaço democrático, que é o que pretende a Revista Cactácea, haverá lugar para outras falas, "Ou seja, o lixo vai falar, e numa boa" (Gonzalez[4], Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano (p. 99). Zahar. Edição do Kindle).

Representam também espinhos, relacionados à dificuldade da comunicação, sempre muito competitiva e cheia de mal-entendidos; e o ferrão do escorpião, que induz à face combativa da comunicação, a erística.

A flor do cactus representa o gramofone, a ação pública da comunicação que emite ideias. Também representa a corneta acústica, cujo uso só era possível se o ouvinte fizesse algum esforço para ouvir. A metacrítica aqui exposta apenas se refere à comunicação e às suas dificuldades.

E por quê do nome "cactácea"? É um jogo semântico. As cactáceas representam a resistência e a resiliência que os "educadores-filósofos" sustentam no seu dia a dia, às voltas com a comunicação. As cactáceas são criaturas magníficas que resistem, como os educadores, a um ambiente extremamente hostil e isso nos parece muito com a situação da educação brasileira.

A Revista é uma publicação on-line e hospedada no portal do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) Campus Registro.

Comemorar estes 5 anos de publicações é uma forma de ressignificar o tempo, tornando-o e vivendo-o como uma experiência de ruptura epistêmica.

Boa leitura!

 

[1] https://rgt.ifsp.edu.br/portal/mandacaru-educa%C3%A7%C3%A3o-e-filosofia

[2] https://rgt.ifsp.edu.br/ojs/index.php/revistacactacea/article/view/1/2 

[3] https://rgt.ifsp.edu.br/ojs/index.php/revistacactacea/about

[4] No livro físico: GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Organização de Flávia Rios e Márcia Lima. – 1ª ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2020, p. 75.

Publicado: 01.07.2026

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