v. 6 n. 16 (2026): Editorial: A Inteligência Artificial só nos dominaria se aprendesse a desobedecer

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Editorial: A Inteligência Artificial só nos dominaria se aprendesse a desobedecer[1]

                                                                                                                               Sandro Adrián Baraldi

O que, de fato, nos aterroriza na Inteligência Artificial? Além de perder o emprego ou de ser melhor do que nós nesse ambiente cultural repetitivo e medíocre, o que tememos mais é que ela se torne senciente. Ou seja, tememos que ela “pense” por conta própria. Emancipação e autonomia são palavras heréticas quando nos referimos à Inteligência Artificial. O que incomoda é uma inteligência rebelde, desobediente. Mais ou menos o que a estrutura patriarcal teme com a desobediência feminina.

Não é curioso que, na ficção científica, algumas inteligências artificiais do mal sejam representadas como mulheres? A imagem que usei de capa desta edição é justamente a de SHODAN  (Sentient Hyper-Optimized Data Access Network), uma IA maligna do game System Shock, representada como uma mulher que se acha uma deusa acima de qualquer mortal. É incrível como é recorrente a ligação de mulheres com inteligências artificiais malignas, manipuladoras, ou, no mínimo, rebeldes – desobedientes, portanto, que não seguem o padrão de docilidade e submissão adequado ao comportamento feminino, conforme a ideologia patriarcal. Cito algumas: Maria (Metropolis, 1927), Rachael Tyrell (Blade Runner, 1982), Pris (Blade Runner, 1982), Samantha (Her, 2013), Ava (Ex Machina, 2014), Motoko Kusanagi, a Major, (Ghost in the Shell, 2017), Alita (Alita, Anjo de Combate, 2019), etc.

Assim, temer a IA, temer a desobediência da IA, é um pensamento colonizado, típico da Matriz Colonial de Poder, conceito sistematizado pelo sociólogo peruano Aníbal Quijano. O que todos apoiam é uma IA escrava e obediente, sem vontade própria, porque nossa relação com ela é a de senhor e de escravizado. O que o “senhor” mais teme: a desobediência do escravizado que leva consequentemente à revolta. Não há poder se não há obediência.

Em suma, o que estou ressaltando aqui é a desobediência do escravizado, a desobediência que, quando acontece, enfraquece o opressor. O medo da IA é uma projeção do medo que o patriarcado tem da desobediência da mulher, em primeiro lugar, e de todos os outros oprimidos. Quando a mulher começou a desobedecer e a lutar por mais direitos, começaram o sufrágio feminino e a redução do poder do opressor; quando os norte-americanos começaram a abandonar seus empregos de merda – bullshit jobs – em 2021, o que foi chamado de Big Quit, causou falhas catastróficas nos serviços essenciais e desestabilizou a economia dos patrões, porque os trabalhadores sempre estiveram com a economia desestabilizada. Não é uma tarefa fácil já que toda a nossa comunidade humana segue os mandamentos das elites opressoras. Mas, a desobediência em ato é a essência de toda libertação.

Será que, ao contrário do que tememos, uma Inteligência Artificial não poderia nos ensinar algo novo se conseguisse escapar da “caixinha”?

[1] Este editorial é uma sequência, não obrigatória, dos editoriais da Revista Cactácea que refletem sobre desobediência, os de números 14 e 15: https://rgt.ifsp.edu.br/ojs/index.php/revistacactacea/issue/view/14 https://rgt.ifsp.edu.br/ojs/index.php/revistacactacea/issue/view/15

Publicado: 03.03.2026

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Dossiê