Sobre a Revista

Expediente

A Revista Cactácea - Educação, Filosofia é uma publicação eletrônica online do IFSP Câmpus Registro de periodicidade quadrimestral (3 edições por ano).

Equipe Editorial

Profa. Dra. Ofélia Maria Marcondes
Prof. Dr. Sandro Adrián Baraldi

Ano de Lançamento

2021

Objetivo

Contribuir para a divulgação e a visibilidade de autores preocupados com críticas sociais, com a difusão do pensamento e da análise dos fenômenos ligados à formação humana e promover amplo debate crítico entre diferentes áreas do conhecimento humanístico tanto no que se refere à filosofia e à educação como cultura, literatura, ciências, em busca de fomentar um diálogo interdisciplinar.

Justificativa

Em um mundo em que prevalece o pensamento acrítico, a obediência sem questionamento, a banalidade do mal, a "imunização da manada", vemos necessidade de apontar rupturas epistêmicas para rumos mais humanos não especistas. Cremos que esta astronave, o planeta Terra, conta com uma tripulação - humana e não humana - que precisa urgentemente reencontrar seu equilíbrio. A única maneira de reverter esse processo insano e destrutivo é por meio de narrativas que valorizem e revalorizem aspectos sociais não destrutivos, hoje em franca decadência.

URL

https://rgt.ifsp.edu.br/ojs/index.php/revistacactacea/index

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Edição Atual

v. 6 n. 18 (2026): Mulheres negras latino-americanas e caribenhas

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Editorial: Mulheres negras, latino-americanas e caribenhas

Ofélia Maria Marcondes

O dia 03 de junho de 2026 pode parecer para vocês um dia comum, ordinário, como qualquer outra quarta-feira, mas, para nós, não. Foi o dia em que a Hevelyn Sabrina Silva Santos, da Associação Filosofia e Libertação (AfyL Brasil), nos colocou num grupo de WhatsApp para a organização de um evento único, fundamental: I Ciclo de Conversas Mulheres Negras, Latino-americanas e Caribenhas em comemoração ao dia 25 de julho, data em que celebramos o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra[1], reafirmando nossa luta pela igualdade racial e de gênero.

Tereza de Benguela, a rainha Tereza, comandava o quilombo em regime de parlamento com estrutura político-administrativa formada por um senado, mantinha um sistema de defesa com armas trocadas com brancos ou subtraídas de vilas próximas. No quilombo, objetos de ferro eram transformados em instrumentos de trabalho. Foi perseguida e morta pela milícia da época, como descrito nos Anais de Vila Bela do ano de 1770[2].

Tereza, a maldita, para o Estado, a desaventurada, por não se manter no seu papel de escrava, foi morta por liderar o quilombo, por ser mulher negra que lutou para proteger os seus. Um silenciamento provocado pela força do Estado contra as forças ditas rebeldes. Uma morte como exemplo. A morte de uma mulher que exercia uma liderança como exemplo às lideranças que não podem e não devem reagir contra a ordem das coisas, em outras palavras, ao que está instituído, e às mulheres que necessitam, de modo institucional, permanecer na sua insignificância. A morte de Tereza foi também a morte de uma experiência sociopolítica alternativa ao regime vigente. Os fugitivos também foram mortos, mas só a cabeça de Tereza foi exposta. O corpo de uma mulher que é colocado a público para aterrorizar, para colocar limites, para dar a crer que a ordem estabelecida deve ser mantida.

Tereza é um símbolo e também o retrato das mulheres negras que, no Brasil, somam 60,6 milhões de pessoas segundo o levantamento de 2023 realizado pelo Ministério da Igualdade Racial [3]. Somos 11,30 milhões de mulheres pretas e 49,30 milhões, pardas. Números expressivos que carregam dores, sonhos, desejos, aflições, amarguras, alegrias e muita luta. Uma luta cotidiana nos lares brasileiros de famílias majoritariamente monoparentais, em sua maioria, sendo a mãe, a provedora, a mulher que leva pela mão suas filhas e seus filhos, que podem contar apenas com outras mulheres. Estão nas comunidades, nas escolas, nos hospitais, nas universidades, nas periferias, nas fronteiras, nas margens. Um número que tem cor, classe social e gênero. Vítimas de feminicídio. Mulheres que são mortas pelo simples fato de serem mulheres.

Vejamos o caso de Beatriz Nascimento, filósofa e ativista brasileira que viveu e morreu no século XX. Beatriz, diferentemente de Tereza, foi morta por seu cotidiano, por um homem que maltratava a companheira. Beatriz, ao defender outra mulher, ao não suportar a violência estrutural que ainda tem ressonância no cotidiano de muitas mulheres, foi assassinada. Uma pensadora, na defesa de seus princípios, mesmo na vida hodierna, se encontrou com a morte violenta. Um feminicídio.

Hevelyn nos reuniu e decidimos por um evento de fôlego, acontecendo de modo virtual e ao longo do mês de julho. A AFyL é espaço de reflexões e de lutas, de estudos e de debates. Juntas, juntos e juntes lutamos por um mundo cada vez melhor, em luta contra as relações de opressão. Ao longo do mês de julho de 2026 realizamos mesas temáticas, rodas de conversa, debates e momentos culturais. Disso resultou o Dossiê que agora apresentamos em nossa Revista Cactácea, parceira da AfyL e que tem como meta principal ser espaço de visibilidade para as invisibilizadas e os invisibilizados, espaço de voz para quem foi silenciada e silenciado.

O trabalho da AfyL e o I Ciclo de Conversas Mulheres Negras, Latino-americanas e Caribenhas está nas redes sociais. No canal do YouTube estão os vídeos do evento:

https://www.youtube.com/playlist?list=PLLhSds1OwIZgO1hRzxgMF7N4Igmh9_UGw.

Acesse. Assista. Acompanhe. Curta. Participe.

A melhor apresentação que podemos ter é Lélia Gonzalez que “gritou”: o lixo vai falar, e numa boa[4]. O lixo, aquilo que é descartado, excluído, que é um entulho, um algo desimportante, que não tem utilidade. O lixo também pode ser político: é a escória, a ralé, o que é posto à margem da sociedade. Para se livrarem do lixo: limpeza étnica, silenciamento, epistemicídio, invisibilização, descarte, incineração, deixar apodrecer. Tereza foi silenciada pela morte. Beatriz também. Sejamos suas vozes e seus rostos.

Boa leitura!

 

[1] Lei nº 12.987/2014.

[2] Amado, J., & Anzai, L. C. (2006). Anais de Vila Bela: 1734-1789 (Coleção Documentos Preciosos). EdUFMT.

[3] https://www.gov.br/igualdaderacial/pt-br/composicao/secretaria-de-gestao-do-sistema-nacional-de-promocao-da-igualdade-racial/diretoria-de-avaliacao-monitoramento-e-gestao-da-informacao/informativos/informe-edicao-mulheres-negras.pdf

[4] GONZALEZ, Lélia. (2020). Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Flávia Rios e Márcia Lima (orgs). Zahar, p. 78.

Publicado: 01.11.2026

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