Entre Jó e Zaratustra: sofrimento, niilismo e crise do fundamento na modernidade
Resumo
O presente artigo investiga o confronto filosófico entre Friedrich Nietzsche e o Livro de Jó a partir do problema do sofrimento inocente, da crise do fundamento metafísico e da crítica à moral do sofrimento na tradição ocidental. O estudo analisa como a genealogia nietzschiana da moral denuncia a transformação da dor em mecanismo espiritual de culpabilização da existência, interiorização da culpa e negação da vida. Em contrapartida, demonstra-se que o Livro de Jó introduz fissura decisiva na lógica retributiva da tradição religiosa ao expor a experiência do sofrimento sem culpa proporcional e o colapso da inteligibilidade moral do cosmos. A pesquisa sustenta que Jó não representa simples resignação ascética, mas experiência radical de revolta diante do silêncio divino e da opacidade da transcendência. O artigo articula hermenêutica filosófica, fenomenologia da existência, genealogia da moral e filosofia da religião, dialogando criticamente com Martin Heidegger, Albert Camus, Søren Kierkegaard, Walter Benjamin, Paul Ricoeur e Emil Cioran. Conclui-se que o confronto entre Jó e Nietzsche revela a impossibilidade contemporânea de reconciliar plenamente sofrimento, justiça e existência, mantendo aberta a tensão entre a exigência humana de sentido e a opacidade última do real diante da experiência da dor.
