A nação interrompida
contra-arquivo e temporalidade nas poéticas negras transatlânticas
Resumo
Este artigo analisa como a memória se converte em princípio formal de contra-arquivo na poesia de Conceição Evaristo, Nancy Morejón e Shirley Campbell Barr. O corpus principal compreende “Vozes-mulheres”, “Mujer negra” e “Rotundamente negra”. Por meio de leitura analítica dos poemas e comparação transversal, examinam-se repetição, paralelismo, montagem, fragmentação e performatividade como procedimentos que reorganizam a temporalidade da narrativa nacional. Propõe-se uma tipologia composta por três modalidades relacionadas, mas não equivalentes: o contra-arquivo genealógico, o épico-diaspórico e o performativo-identitário. A análise demonstra que esses poemas não se limitam a recuperar sujeitos excluídos do arquivo estatal. Eles deslocam os critérios de inteligibilidade histórica ao tensionar a continuidade progressiva por meio de regimes temporais marcados pela reverberação ancestral, pela refundação diaspórica e pela interrupção performativa. Conclui-se que a poesia afro-latino-americana de autoria feminina constitui uma forma de memória crítica que expõe a contingência racial e patriarcal da forma-nação.
