Heranças entre mulheres: corpo, trabalho, violência e formas de resistência em Corpo desfeito, de Jarid Arraes

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Resumo

Neste texto, analisamos o romance Corpo desfeito (2022), de Jarid Arraes, a partir da hipótese de que a narrativa constrói uma genealogia feminina na qual trabalho, maternidade, cuidado e violência circulam entre gerações como formas ambivalentes de herança. Partindo dessa perspectiva, deslocamos a análise do trauma individual da narradora Amanda para a linhagem constituída por Marlene, Fabiana e Amanda, buscando compreender como, ao longo das gerações, o espaço doméstico concentra e reproduz relações de poder representadas por gênero, raça e precariedade social. A leitura privilegia a máquina de costura, o trabalho doméstico, o silêncio e a disciplina do corpo como signos de uma memória familiar que se transmite material e afetivamente. Em diálogo com Lélia Gonzalez (2020), Patricia Hill Collins (2019), Bell Books  (2018), Kimberlé Crenshaw (2002) e Márcio Seligmann-Silva (2005), argumentamos que o romance desromantiza a maternidade sem reduzi-la a uma experiência essencialmente negativa, já que são as condições históricas e sociais que convertem o cuidado e a sobrevivência em sobrecarga que se tornam objeto de problematização. A relação entre Amanda e Jéssica, assim como o gesto final de insubordinação da protagonista, abre fissuras na lógica de repetição geracional, apontando para a possibilidade de reelaboração da herança recebida. Assim, o “corpo desfeito” constitui, simultaneamente, arquivo da violência e território de reelaboração subjetiva.

Biografia do Autor

Sra. Cristiane , UFPI

Cristiane Viana da Silva Fronza — Doutora em Letras pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Mestra em Letras pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI) e graduada em Letras – Língua e Literatura Portuguesa e Francesa pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Professora do quadro permanente do Curso de Letras Português e Francês da UFPI e docente credenciada no Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGEL/UFPI). Líder do Grupo de Pesquisa em Literatura e Crítica Feminista (NUA). Desenvolve pesquisas sobre literatura de autoria feminina negra e crítica feminista e realiza estágio de pós-doutoramento na UESPI, com pesquisa sobre a escrita da mulher negra na literatura Ladina Amefricana.

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Publicado

01.11.2026