Por uma epistemologia ch'ixi da ia em chave de uma lógica paraconsistente
nem oposição binária tecnologia/tradição, nem fusão harmônica
Resumo
Este ensaio propõe deslocar a crítica decolonial à inteligência artificial de um vocabulário de oposição entre a tecnologia versus tradição e o algoritmo versus ancestralidade, para a categoria aymara de ch'ixi, elaborada por Silvia Rivera Cusicanqui. Argumenta-se que pensar a IA a partir da colonialidade do poder (Quijano) e da desumanização do colonizado (Fanon) é necessário, mas insuficiente, se não se acrescenta a crítica ao colonialismo interno e à extração epistêmica que a própria teoria decolonial pode reproduzir quando converte práticas situadas em objeto de tese. A hipótese central é que a relação entre inteligência artificial e saberes ancestrais não deve ser lida como síntese harmônica nem como antagonismo puro, mas como zona ch'ixi: um entrelaçamento tenso, contraditório e não resolvido, em que dois princípios de organização do conhecimento coexistem sem se fundir e sem se anular. Propõe-se, ainda, um parentesco formal entre essa categoria e a lógica paraconsistente do filósofo brasileiro Newton da Costa, que demonstrou ser logicamente possível a coexistência controlada de contraditórios sem trivialização do sistema, parentesco tal, que se explicita com a ressalva de não reduzir o ch'ixi a uma mera tradução formal, sob pena de repetir o próprio extrativismo epistêmico que este ensaio critica. Conclui-se que uma epistemologia ch'ixi da IA exige menos a denúncia do algoritmo como máquina colonial e mais a atenção às práticas concretas, a partir de que lugar, com que reciprocidade e sob que autoria em que comunidades manejam o digital.
