Entre o Aplicativo e a Incubadora: Proposta de Modelo Crítico-Conceitual para o Fenômeno da Dualidade Estrutural do Empreendedorismo no Brasil
Resumo
A estrutura produtiva e o ambiente de micro e pequenos negócios no Brasil caracterizam-se por uma marcante dualidade estrutural: de um lado, posiciona-se o empreendedorismo tradicional e de subsistência – crescentemente reconfigurado a partir dos anos 2000 pela expansão do formato MEI – microempreendedor individual, e por fenômenos mais amplos de fragmentação do mercado de trabalho, como a pejotização, a uberização e a plataformização. De outro lado, encontra-se o empreendedorismo de base tecnológica, EBT, ou universitário, caracterizado por alta densidade de P&D, abrigo em ambientes de inovação (incubadoras, aceleradoras e parques tecnológicos) e expressivo potencial de escalabilidade e geração de empregos qualificados. Apesar do avanço quantitativo nos registros empresariais nas últimas duas décadas, com milhões de empreendedores individuais formalizados, em muitos casos mascarando relações precárias de trabalho, subsistem algumas lacunas críticas na literatura acadêmica e no planejamento de políticas públicas: a distorção das estatísticas oficiais trazida pelo "falso empreendedorismo" (pejotização); a reduzida transição tecnológica entre os pequenos negócios tradicionais e o conhecimento gerado nas universidades; e os fatores condicionantes (educação empreendedora, suporte ecossistêmico e conjuntura macroeconômica) que orientam a intenção dos indivíduos a empreender por oportunidade ou por necessidade. Este estudo, no âmbito da dualidade empreendedor tradicional versus empreendedor de base tecnológica, tem como objetivo realizar discussão teórica acerca (1) das distorções causadas pelo falso empreendedorismo e (2) da incapacidade de transbordamento tecnológico das universidades para a base da pirâmide, visando à elaboração de um modelo teórico-conceitual prévio que desvele as contradições do capital na era digital, quiçá contribuindo na formulação de diretrizes e de políticas públicas para o desenvolvimento sustentável de amplos ecossistemas de inovação no Brasil, integrando milhões de trabalhadores da base da pirâmide a processos de inovação aberta e coletiva.
