A cruz e o martelo: Nietzsche contra Paulo de Tarso e a genealogia do cristianismo
Resumo
O presente artigo analisa o confronto filosófico entre Paulo de Tarso e Friedrich Nietzsche como uma das rupturas mais profundas da tradição ocidental. A investigação parte da hipótese de que a crítica nietzschiana ao cristianismo constitui, sobretudo, uma crítica genealógica da produção histórica da subjetividade culpada. Em Paulo, a cruz transforma o sofrimento em fundamento espiritual da redenção e estrutura uma antropologia marcada pela culpa, pela transcendência e pela dependência da graça. Em Nietzsche, ao contrário, emerge uma filosofia trágica da afirmação da vida que rejeita toda metafísica fundada na negação do corpo, dos afetos e da contingência da existência. O artigo articula genealogia filosófica, hermenêutica e fenomenologia da existência, mobilizando o diálogo com Søren Kierkegaard, Arthur Schopenhauer, Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre, Albert Camus, Sigmund Freud e Emil Cioran. Sustenta-se que a modernidade secularizada não superou integralmente o cristianismo, mas internalizou suas estruturas morais sob novas formas históricas de culpa, ressentimento e autoexploração subjetiva. Conclui-se que o embate entre cruz e martelo permanece central para compreender a crise espiritual da modernidade contemporânea.
