Nietzsche e o livro de Isaías: entre a morte de Deus e a esperança messiânica
Resumo
Este artigo investiga criticamente as tensões filosóficas, hermenêuticas e civilizacionais entre Friedrich Nietzsche e o Livro de Isaías, recusando interpretações simplificadoras que reduzem essa relação à oposição entre ateísmo e religião. Partindo da genealogia nietzschiana da moral e da crítica à transcendência metafísica, o estudo analisa em que medida a tradição profética hebraica participa da constituição da moral ascética denunciada por Nietzsche e, simultaneamente, em que medida a experiência profética isaiana ultrapassa essa interpretação ao constituir-se como linguagem de denúncia histórica, resistência política e crítica da decadência civilizacional. Entre a voz do profeta que anuncia juízo sobre reis, impérios e injustiças e a voz do filósofo que proclama a morte de Deus diante do colapso espiritual do Ocidente, emerge uma disputa radical pelo sentido da existência humana. O artigo examina os problemas da culpa, do ressentimento, do sofrimento, da esperança messiânica, do niilismo e da criação de valores, articulando hermenêutica filosófica, genealogia da moral e filosofia da religião em diálogo com Martin Heidegger, Karl Jaspers, Paul Ricoeur, Gilles Deleuze, Walter Benjamin e Northrop Frye. Sustenta-se como tese central que Isaías e Nietzsche, embora situados em horizontes ontológicos inconciliáveis, constituem vozes rivais da crise do Ocidente: um insiste que sem transcendência a história sucumbe à violência absoluta; o outro denuncia precisamente a transcendência como origem do niilismo e da negação da vida. Conclui-se que o confronto entre Isaías e Nietzsche permanece decisivo para compreender a crise contemporânea do sentido, da linguagem e da condição humana após o colapso dos fundamentos metafísicos tradicionais.
